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“Ideologia”, quase 30 anos depois

Por Jonas Bezerra

Na década de 1980, o Brasil respirava rock. Em São Paulo, no palco do Aeroanta, o reduto do rock paulistano que resistiu até 1990, passou nomes conhecidos do público como Cássia Eller, Chico Science, Marisa Monte, Ed Motta, The Falla e Cazuza, nome artístico de Agenor de Miranda Araújo Neto, de quem vamos falar.

O Brasil vivia um momento político conturbado – pra variar – e Cazuza sussurrava suas proféticas melodias em um país que sempre teve no proselitismo político, a corrupção a tiracolo.

Mais comedido e menos gesticuloso no palco, o ex-vocalista do Barão Vermelho trazia para o palco do Aeroanta um projeto musical que seria um marco da música brasileira. Em 18 de agosto de 1988, Cazuza lança o seu terceiro trabalho solo: “Ideologia”.

O álbum trazia faixas que viraram hits no país, ora mais politizado ora mais filosófico.  “Ideologia”, “Boas Novas”, “Brasil”, “Um Trem para as Estrelas”, “Vida Fácil”, “Blues da Piedade” e “Faz Parte do Meu Show” foram canções que se eternizaram nas mentes das pessoas ao longo desses quase 30 anos após o seu lançamento.

Além de apresentar um Cazuza mais crítico politicamente, o álbum trazia um Cazuza mais apegado ao espiritual, como ele mesmo disse numa entrevista na época: “Estou olhando mais para cima agora”. Neste período, o cantor carioca entraria na fase mais crítica de sua luta contra a AIDS.

O álbum “Ideologia” continua atual e era o prenúncio do artista ao encontro com a morte. Isto ficou evidente em várias faixas do álbum, entre elas “Boas Novas”: – Senhoras e senhores, trago boas novas. Eu vi a cara da morte. E ela estava viva.

Metáforas à parte, o artista que levava uma vida boêmia e libertina no Baixo Leblon suplicava por uma ideologia que alimentasse a sua alma, sua criatividade em busca de novidades que não estivessem presas ao passado.

Hoje, entre ameaças de bombas e cogumelos atômicos, os inimigos e os heróis de Cazuza se misturam no poder, unidos por ideais maquiavélicos, e… já não morrem mais de overdose.

Mas, de fato, suas músicas transcendem o seu tempo, tanto pela musicalidade como pela poesia contestadora. Foi assim que ele ecoava os seus cantos para nós, despidos de falsos moralismos, de pseudo-ideais.

Cazuza morreu precocemente em 7 de julho de 1990, aos 32 anos.

Foto: Reprodução Google

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